sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Todas as mães são ridículas

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Dizia o meu muito querido Álvaro de Campos que todas as cartas de amor são ridículas. Pois então o que dizer das mães, essas cartas de amor vivas e ambulantes, que se reescrevem todos os dias? As mães, aquelas que morrem de amor pelos seus filhos e ressuscitam a cada sorriso deles, são o cúmulo do ridículo. 

Os pais não são assim. E isto não quer dizer que eles amem mais ou menos que nós, mães. Eles vibram, ficam orgulhosos, fotografam, riem e contam a façanha, mas a emoção, aquela que transborda pelos olhos, está-nos eternamente reservada. 

Só uma mãe, ridícula, poderá emocionar-se ao entrar na creche e ver o rosto da filha numa estrelinha que decora o pinheiro de Natal. Ela, ali, no meio de tantas outras estrelinhas, que, seguramente, emocionam outras mães. Ridículas e felizes. Como esta.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Se não podes com eles...

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Quando decidimos o nome da nossa filha, tínhamos plena noção que se tratava de um nome dado a possíveis degenerações para coisas estranhas. E, mesmo que não tivéssemos, o tenebroso 'Guida' e o ainda pior 'Guidinha' rapidamente surgiram, em tom de brincadeira. 

O drama das Guidas é tal, que fomos logo alertados para esse destino inevitável, que aguardava a Margarida, como que a esfregar sadicamente as mãos. Se é Margarida, será, invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, em menor ou maior escala, uma Guida. Ou Guidinha. 

Ingénua que era, acreditava que esses tempos já eram, que, no máximo, teríamos uma Maggie ou uma Magui. É que eu até compreendo, Margarida é um nome longo. Dá algum trabalho, exige alguma articulação e admito que eu própria já me enrolei uma ou outra vez.  

Mas é, para mim, o nome mais bonito. O mais especial... É o nome que nós escolhemos, aquele que (tão bem) identifica a nossa filha. O que lhe assenta que nem uma luva. Nome de flor. A nossa Margarida. 

Esta semana, na creche, quando preparava a Margarida para voltarmos para casa, ouvi "Guida, já vais embora?". Continuei. Outra vez. Três vezes. A insistência fez-me olhar para trás, mesmo sem ter feito qualquer associação. Era a auxiliar da sala da Margarida. Aquela senhora, genuinamente querida, que lhe dá sempre um beijinho repenicado e recebe em troca o sorriso feliz da Margarida. 

Acho que andei numa espécie de negação, porque, na verdade, esta não foi a primeira vez que ouvi referirem-se assim à Margarida, lá na creche. Achei sempre que era em tom de brincadeira, de tão má que a outra hipótese seria. Então, ria-me. Mas esta semana tive a certeza - seja para a educadora ou para as auxiliares, a minha filha é uma Guida.

Sei que se trata de uma guerra desigual, mas eu recuso-me a deixar que o destino desta Margarida seja igual ao das restantes. 

Se não podes com eles, mais um motivo para não te juntares a eles! 

O nome da minha filha é M-a-r-g-a-r-i-d-a.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Olhó pai a falar para ti! #2


A Visão de uma Gravidez por Afinidade

1º Trimestre

“Agora tenho mesmo que começar a perceber disto, a lembrar-me das aulas de biologia, ver vídeos no youtube sobre gestação passo-a-passo e perceber que milhões de milagres têm que acontecer para que tudo aconteça com "normalidade".”

No primeiro trimestre, se a mãe chegasse ao pé de mim e dissesse que, afinal, não estava grávida (falso alarme), haveria por certo um reajustamento cerebral, por assimilação da nova fase, mas o choque não seria muito grande, já que não sentia nada no meu corpo nem havia, ainda, alterações muito visíveis no corpo dela.

2º Trimestre

Com a barriga já bem saliente e a visível presença de um ser frágil no seu interior, na minha cabeça impunha-se a necessidade de um aumento da segurança desse mesmo ser, com uma espécie de reforço blindado, com barras anti-choque, pois a barriga sempre me pareceu vulnerável e insuficientemente segura, mesmo para os pequenos acidentes.

Essa “preocupação” aumentou quando começaram os primeiros movimentos de dentro para fora, que para além de serem perceptíveis ao toque, eram já visíveis ao olhar atento. Foi aqui que senti a primeira comunicação involuntária e os primeiros laços extra-biológicos.

Um pequeno ser, que mais tarde (no meu aniversário), iria ser revelado o sexo por uma profissional de saúde de leste, munida de meios tecnológicos avançados - “É uma minina!”, disse ela! Foi impossível conter a emoção, senti mesmo que naquele momento fazia-se História, a nossa história.

3º Trimestre

Período de todas as revelações e emoções fortes. Ver o primeiro sorriso em 3D, contornos do rosto (ainda que digitalizados), exames que revelariam (felizmente) uma boa saúde do bebé e da mãe (parabéns à mãe, pelas exemplares condições que ofereceu a ela própria e à bebé).

A necessidade de comunicar com o pequeno ser, agora já Margarida, foi bi, tri-diária... A constante actualização das evoluções sensoriais e motoras, semana após semana... Até aos sinais que nos indicariam que o grande momento estava perto.

E O MOMENTO é mesmo O ACONTECIMENTO das nossas vidas, pois nada é comparável à força avassaladora daquele momento.
E nada, nem mesmo o acompanhamento bem de perto de todo o processo (Aulas de Preparação, vídeos, tutoriais, outras belas estórias), nada me preparou para o dia 7 de Abril de 2014. O dia maior.

O Pai da Margarida.

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Onde começa o amor?

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Quem nunca passou pelo nascimento de um filho pode até acreditar que, juntamente com aquele ser, nasce, de imediato, um amor imensurável. Ali mesmo, na sala de partos. Como se bastasse bater os olhos naquele bebé, que respira pela primeira vez. É isso que nos dizem. É isso que muitas mães continuam a apregoar que sentiram. Desculpem-me, mas isso são balelas. Fica bonito dizer que amamos os nossos filhos desde o primeiro minuto? Fica, mas eu não lhe chamaria amor. Às custas desse clichê, são muitas as mulheres que ficam a questionar-se, que se sentem pessimamente, que duvidam daquilo que serão enquanto mães, porque, efectivamente, não sentiram esse amor imensurável de que se fala, assim que ouviram aquele primeiro choro. 

Ao primeiro choro da Margarida, senti, acima de tudo, alívio. O maior alívio da minha vida! Alívio por ela estar bem, alívio por termos conseguido. Senti uma imensa e inebriante felicidade, que dificilmente se consegue explicar. Senti que estávamos, os três, a viver um momento histórico, na nossa história. Que era um privilégio, o maior de todos. Que, a partir daquele momento, tudo faria para assegurar o bem estar daquele ser, até ao fim dos meus dias. 

O nascimento da Margarida fez-me lembrar, mais que nunca, que não passamos de animais. Não nasceu um amor imediato e imensurável. Mas nasceu, juntamente com ela, a minha total disponibilidade para aquele ser. Uma capacidade de abnegação que desconhecia. Um encantamento crescente. Uma animalesca vontade de cuidar, lamber a cria, alimentá-la, reconfortá-la, admirá-la. Mas tudo isto sem saber muito bem porquê. Afinal, como poderia amar um ser que, mesmo tendo crescido dentro de mim, acabara de conhecer? Amar porque é suposto? 

Não amei a Margarida de imediato. Mas um dia, ainda na gravidez, pensei 'e se correr alguma coisa mal e apenas uma de nós se puder salvar?' (viva as hormonas!). Nesse momento, senti que preferia, sem qualquer hesitação, que se salvasse a bebé. Aquele ser que eu apenas sentia mexer cá dentro. Senti essa escolha com tanta verdade e convicção, que me assustou, de tão nova que era a sensação. Nesse momento, tive a certeza que estava preparada (dentro do que é possível estar), para ser a mãe da Margarida.

O amor, esse, foi-se construindo, como qualquer amor. Rapidamente passei a ser viciada na Margarida. Era uma necessidade animal de tocar, cheirar, acalmar, cuidar, que qualquer mãe bem conhece. Dava comigo a pensar que se, por algum motivo, me visse privada daquele bebé (outro grande viva para as hormonas!), enlouqueceria. O primeiro mês foi a fase do encantamento. A partir daí, com os primeiros sorrisos, veio a paixão. Uma paixão que galopava, de cada vez que o sorriso da Margarida me fazia sentir abraçada por dentro. Sem que me apercebesse muito bem disso, o amor, o tal imensurável, cá se foi instalando, graças a tantos momentos felizes, mas, também, a episódios mais delicados que juntos superámos. Graças a isso e a tudo o resto que desconheço. Um amor que cresce por tudo e por nada.

O amor que se sente por um filho deve ser das coisas mais difíceis de colocar em palavras. Sei apenas dizer que é um amor que me dá vontade de chorar. Às vezes, tantas vezes, olho para ela e os meus olhos enchem-se de água. E, ao escrever isto, sinto vontade de ir a correr ao quarto, abraçá-la e dar mais um bocadinho de beber a este amor, com aquele sorriso, aqueles olhos brilhantes, aquele cheiro - mas iria acordá-la e isso é capaz de não ser boa ideia. E é quando penso neste amor que me faz sentir tão viva, de tanto que enche a alma, que mais tenho certeza que nunca poderia chamar amor ao que senti quando a Margarida nasceu. 

A Margarida tem apenas 7 meses e meio e eu juro que não faço ideia onde irá caber mais deste amor, que cresce de forma colossal todos os dias. Mas sei, com toda a certeza, o que irei fazer com ele. Ou não fosse ela a minha filha.

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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

4490 Marias

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Segundo um artigo da Visão, no ano passado foram registadas 4490 Marias, 1942 Matildes, 1867 Joões e 1841 Rodrigos. Seguem-se, na lista dos nomes mais populares, Martim, Leonor, Tomás, Francisco, Mariana, Salvador e Carolina.

A notícia fez-me remontar àquela fase da gravidez em que, desconhecendo ainda o sexo do bebé, se começa a pensar seriamente no assunto. No nosso caso, nunca outro nome de menina veio à baila. Nunca outro foi hipótese. Nunca tivemos de fazer listas, ir a votos, decidir.

Ainda assim, a hipótese de ser menino fez com que pudesse sentir na pele um bocadinho do drama que muitos casais sentem, no momento de escolher o nome de um filho. Sou difícil com nomes. Contam-se pelos dedos da mão aqueles que não me fazem torcer o nariz. Especialmente no caso de nomes masculinos! 
Eu disse ao pai os que gostava. Ele disse-me os que gostava. Inicialmente, ficámos com duas opções, mas nenhuma delas me enchia as medidas. Ainda insatisfeitos, sentámo-nos frente ao computador e fomos percorrendo as listas de nomes. "Não", "Nem pensar", "Ahahahaha, NÃO!". Até que nos cruzámos com um que pareceu ter despoletado um qualquer click. "Olha, eu gosto!", "Eu também!", "Gosto mesmo!", "Está decidido!".

Acho que a ligeireza com que arrumei o assunto se deveu, em grande parte, ao facto de acreditar, cá bem no íntimo, que nada disso seria necessário, afinal, seria a Margarida. Felizmente, confirmou-se e o assunto ficou por ali mesmo. 

Ainda antes do nascimento da Margarida, percebi que nunca teríamos levado aquele nome de menino adiante. A certa altura, comecei a ouvir o nome em todo o lado. Na maternidade, dividi o quarto com outra recém-mãe, mãe de um menino com o nome que o meu supostamente teria. Na creche da Margarida, um menino com o nome que o meu supostamente teria. Na lista dos nomes mais populares do último ano, o nome que o meu filho supostamente teria. E isso fez-me ver, mais uma vez, o que as desgraçadas das hormonas são capazes de fazer! Nunca, em tempo algum, eu escolheria um "nome da moda". Mas escolhi, mesmo que de forma pouco convincente. 

Moral da história, se puderem, não escolham o nome do vosso bebé durante a gravidez. As hormonas vão minar-vos o cérebro e correm o risco de acabar com uma Leonor Matilde ou com um Rodrigo Tomás. 

Esta coisa das modas é de sempre e para sempre. Lembro-me de, ainda na escola, na hora da chamada, haver sempre aqueles nomes que se repetiam. De estranhar seria se, daqui por uns anos, a Margarida convidasse para as festas de aniversário a Cátia, a Marisa, o Sérgio, a Susana e o Jorge.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Maternidade - O íman do fundamentalismo


Desde que me vi no papel de grávida, senti receio de me tornar numa daquelas mulheres que sempre gozei. Como não queria ousar subestimar o poder das hormonas, temi. Temi transformar-me na típica grávida, que não consegue parar de passar a mão na barriga, de empiná-la, de querer mostrá-la ao mundo, de a usar como bandeira para tudo o que é privilégio, desculpa ou regalia. Os meses foram passando e a minha mão passava na barriga apenas quando não havia público, quando éramos apenas nós. À excepção dos últimos três meses, em que fiz questão de reclamar sempre a minha prioridade, nunca usei a barriga como desculpa para nada. E juro que também nunca inventei desejos. 
Não fui muito de falar para a barriga, muito menos de cantar para ela - mas a Margarida fartou-se de me ouvir falar sem parar e, sobretudo, rir, rir muito. 
Sei que a Margarida não precisou das minhas constantes festas ou dos meus monólogos com a barriga para me sentir, para me conhecer. Nem eu precisava disso para me sentir mais mãe dela.

Depois de nos conhecermos cara a cara, aí sim, veio o real receio de me transformar em tantas coisas. De não conseguir ser a mãe que idealizava. De não ver mais nada. De não querer mais nada. De impor a minha pouca experiência. De não ouvir os outros. De ouvir demasiado os outros. De não ter a humildade de reconhecer as más escolhas. De não voltar a ser eu mesma, além da mãe da Margarida. De perder a sensatez. De me ir tornando, de mansinho, numa mãe fundamentalista. 
Medo de tantas coisas que me poderiam levar para bem longe de quem havia sido até então. Tinha medo que a maternidade me toldasse a visão e, pior, que eu nem sequer me apercebesse disso. 

Assim que se embarca nesta feliz loucura que é ter um filho, desenvolve-se uma espécie de íman que atrai tudo o que é conselho, comentário, opinião, dica, juízo de valor, sugestão, crítica - duvido que alguma grávida/recém-mãe/mãe consiga fugir a essa sina. As vozes insurgem-se, apontam o dedo, ditam as soluções e os inevitáveis desfechos, em caso de as ignorarmos. 
São vozes tão fundamentalistas que apontam más mães, aqui e ali. Elas existem, infelizmente. Mas nunca uma mãe será má mãe por ter agendado uma cesariana, por não amamentar, por praticar o cada-um-na-sua-cama-sleeping, por conseguir sair de casa sem o bebé de 15 dias. Concorde-se ou não. Pratique-se ou não.

E eu não tenho a menor paciência para isso. Não tenho e fico tão feliz por não ter! Garanto-vos que nunca me irão ouvir/ler a pregar sobre a forma como eu acho que devem educar ou cuidar dos vossos filhos. Ainda assim, e como a maternidade se torna muito mais fácil quando partilhada, sou muito mais rica (e melhor mãe, acredito), por ter com quem partilhar ideias, trocar opiniões, tirar dúvidas. Pessoas que sabem do que falam. Ou pessoas que possam estar tão à nora quanto eu. Não importa. Importa a intenção, a sensatez, a noção de onde começa a liberdade do outro, enquanto mãe/pai, a pessoa que terá sempre a última palavra. Uma escolha que merece todo o respeito, mesmo quando discordamos. 

Ao todo, conto apenas com 16 meses de experiência, como grávida e como mãe, mas sinto que se esgotou a minha paciência para ouvir/ler sobre como são péssimas mães as que optam por não amamentar ou como são umas fundamentalistas aquelas que sonham amamentar até aos 2 anos. Sobre as maravilhas do co-sleeping ou sobre o quão mimadas ficarão as criancinhas por dormirem na cama dos pais. Sobre a mãe demasiado apegada ao bebé, que nunca mais foi jantar fora com o marido e até se anulou profissionalmente ou sobre a outra que é demasiado desapegada, trabalha e tira uma noite por semana para namorar. Sobre a alimentação, sobre a creche, sobre o sono, sobre tudo e mais alguma coisa que não acrescenta rigorosamente nada. 

Naturalmente, tenho a minha opinião sobre cada uma dessas questões, questiono-me sobre algumas delas, sobre outras tenho certeza de que a minha convicção não irá mudar. Mas daí até achar que tenho o direito de impingir a minha visão a alguém, vai um longo caminho. Um caminho que quero ter sempre a sensatez de não ousar percorrer.

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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Aninhar, abrigar, aconchegar

Vicente Romero Redondo

Sobrevivemos àquela que foi, muito provavelmente, a pior semana destas últimas trinta e duas. E, nesta última semana, entre sonos trocados e agitados, a Margarida descobriu que gosta de dormir no aperto dos meus braços. E eu descobri que este furacão, tão sedento de mundo, tão repleto de energia, às vezes, também acalma. Aos sete meses, a Margarida parece começar a precisar que lhe mostre que sim, que também é bom acalmar, contemplar, desfrutar, deixar o mundo lá fora à espera e perdermo-nos em momentos mágicos. E eu descobri, nesta semana de tanto cansaço e preocupação, que, apesar de adorar ser mãe de uma bebé tão cheia de vida e de vontade de viver, sentia falta de a ver relaxar e sucumbir ao cansaço, nos meus braços. Rosto com rosto. Respirações fundidas. Batimentos sincronizados. Dois corpos na mesma temperatura. A mais pura intimidade. 

Esta semana serviu para me fazer sentir a urgência de saborear cada pedaço da Margarida. Ela está a crescer, cada dia mais curiosa, mais excitada pela quantidade de novidades. E teve de vir o raio de uma doença para a fazer abrandar, desinteressar-se, querer aninhar com a mãe. E a mãe, ainda a tentar perceber o que se estava a passar, abrigou-a de coração cheio, surpreendida. Uma e outra vez. Ambas percebemos que gostamos. Muito. Tanto. Por isso, hoje, assim que voltámos da creche, foi hora de aninhar e esquecer o mundo lá fora, que grita por ela. Garanto que amanhã será igual. E depois. Sempre que possível. Sempre que possível, irei tapar-lhe os ouvidos com abraços apertados, deixar o mundo em mute e fazer com que aqueles olhos curiosos pestanejem mais lentamente. Mas sempre ciente de que este meu pequeno furacão estará apenas a repor energias para um despertar electrizante, de sorriso rasgado e olhos brilhantes, como que a dizer "Mundo, estou de volta! O que tens para mim desta vez?".

Mais que uma otite, acreditamos que, pelo meio, se meteu, também, um salto de desenvolvimento. A Margarida está a passar, à maneira dela, por aquilo a que chamam 'angústia da separação'. Esta semana foi muito mais do que tratar daquele corpo pequenino, que não sossega. São as emoções e percepções que se alteram profundamente. E o resultado é um pequeno furacão que é, também, uma flor, com uma crescente necessidade de atenção. E de beijinhos nas mãos que se encostam aos meus lábios. E  de infindáveis sorrisos e abraços. E de cantigas e danças.
Agora, a Margarida não se limita a querer descobrir o mundo - ela quer que o façamos juntamente com ela. E há lá coisa que nós mais desejemos?!

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